Como conheci uma família de beduínos por acaso – O Poder do SIM

Essa é uma das histórias mais especiais da minha viagem de volta ao mundo e percebi que ainda não tinha contado direito por aqui. Essa é uma história do poder do SIM, de como se abrir para as outras pessoas pode te levar a lugares impressionantes e inesperados.

 

Quando estava viajando pela Jordânia, já estava na estrada há quase 6 meses. Principalmente depois de 5 semanas na Índia, eu já conseguia distinguir o papinho dos comerciantes e outros tipos de pessoas que queriam tirar alguma coisa dos turistas da voz das pessoas que realmente queriam dividir sua vida com um estrangeiro na estrada (pelo menos na maioria das vezes). E foi por isso que me senti segura em aceitar o convite de uma estranha em um ônibus no meio do nada.

Conheci Bessame no ônibus público que ia de El Karak até Wadi Musa, a cidade ao lado de Petra. Ela estava doente e tinha ido ao médico se consultar. Começamos a conversar em uma das paradas: ela tinha um inglês muito bom e me disse que trabalhava em Petra, junto com toda sua família. Eu era a única estrangeira do ônibus todo. Em algum momento do papo, ela perguntou se eu estava viajando sozinha e se eu gostaria de ficar na casa dela durante minha estadia na cidade.

 

“Por quê não?”, pensei. “Se estiver estranho ou se eu achar que estou incomodando, basta sair e fazer check-in em algum dos mil hotéis da cidade”.

Topei.

 

Ao chegarmos a Wadi Musa, porém um dos primos de Bessame nos pegou de caminhonete e levou para o assentamento beduíno onde viviam! Por essa eu não esperava, achei que eles moravam na cidade! Ainda sim, me senti segura de continuar com eles – e estava na Jordânia, onde é fácil pegar uma carona para qualquer lugar caso quisesse ir embora, basta estender o dedo na rua.

 

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O pôr do sol na Jordânia é amarelo. Essa é a única foto que tenho do assentamento beduíno, a vista da casa da Bessame.

 

Chegando lá, fui recebida com muito amor por 4 de seus 5 filhos (uma das filhas mora com o pai, em outra casa do assentamento). Bessame tem 30 anos, separou-se do primeiro marido e vivia com o segundo. Estava grávida do sexto filho.

 

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Fazendo a Magluba, prato beduíno que significa, literalmente, “de cabeça para baixo”.

Encontre a receita para o Magluba no final deste post.

 

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A família! Ficou faltando o Mohammed e a outra filha da Bessame (do seu primeiro casamento)

 

Por causa do convite, vi de dentro como os beduínos vivem, tanto no vilarejo construído pelo governo (que tem escola, lojas, etc) quanto nas cavernas no meio do deserto, como antigamente. Toda família, me disseram, tem a sua caverna, onde gostam de passar um tempo “de férias”. Senti que os beduínos são um povo essencialmente livre, que se casa e se separa, que viaja quilômetros, que dorme juntinho deitados lado de fora da casa, mesmo quando têm um teto e quartos do lado de dentro.

 

Quando cheguei, não fui direto fazer turismo. Decidi ficar na casa, brincando com os filhos de Bessame, cozinhando e batendo papo. No fim da tarde, me sentei na rua pra comer melancia do lado de fora da casa com a a família toda. Enquanto estava lá, vi a transformação da roupa “da rua” toda negra das mulheres beduínas, que cobre o corpo todo exceto o rosto, para as roupas coloridas e casuais do dia-a-dia de dentro de casa.

 

À noite, ainda que a casa tenha dois quartos, uma sala ampla, cozinha e banheiro, a família inteira dorme do lado de fora, em colchões no quintal. Eu e Mariane, a filha de 12 anos que virou minha super amiga, dormimos do lado de dentro, na sala.

 

Hoje a maioria das pessoas que vivem no assentamento trabalha em Petra vendendo souvenirs ou alugando burrinhos e camelos para levar os turistas pelo sítio arqueológico. Petra é um lugar enorme e não é permitido usar veículos motorizados lá dentro, por isso os turistas com maior dificuldade de locomoção alugam burrinhos para subir as incontáveis escadas de algumas partes das ruínas e também alugam camelos para passear regiamente pelas áreas planas do lugar.

 

Bessame e seu marido Mohammed têm um burrinho e um camelo e os empregam em Petra. Na manhã do dia seguinte que cheguei à sua casa, Mohammed foi comigo até as ruínas levando seus animais pelo caminho no meio das pedras. Não entramos em Petra pela entrada oficial, mas sim pelo caminho beduíno que eles usam há centenas de anos.

 

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Eu e o burrinho

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Mohammed e seu camelo

 

Me senti como a Virgem Maria indo para Belém enquanto estava sentada no burrinho, hahaha. Foi um passeio incrível que me levou às ruínas sobre as quais já contei nesse post.

 

Além de toda a experiência familiar, o fato de estar na casa de um beduíno me conferiu ótimos momentos na própria Petra: donos de lojas que moravam no vilarejo me reconheceram e chamaram para sentar e tomar chá com eles, foram mais amigáveis, não tentavam me fazer consumir coisas nas suas lojas porque deixavam de me ver como um cliente para ser alguém familiar.

 

Voltei para a casa da minha família beduína, domir mais uma noite e, na manhã seguinte, parti cedo de volta para Amman. Com o coração mais leve e a certeza de que o que havia vivido não cabe em nenhum guia de viagens.

 

E tudo isso porque eu disse SIM à uma desconhecida num ônibus. A vida só acontece quando a gente corre algum risco, não é mesmo?

6 comentários em “Como conheci uma família de beduínos por acaso – O Poder do SIM”

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