28 anos de pés descalços

Hoje completo 28 anos de vida. 28 anos não são nada, são um piscar de olhos, um cisquinho temporal que não faz nem diferença. Nós, humanos, vivemos bem pouco, uma brevidade, mas somos muito danados. Nos espalhamos como praga, modificamos o nosso ambiente para ficarmos mais confortáveis, teimamos em chegar onde não devíamos e ali fincar uma bandeira, uma casa, uma cidade inteira. Nos alojamos como pulgão nas folhas das árvores. E, por mais que alguns tentem se comportar direitinho, a verdade é que fazemos mais mal que bem. Há que proteger o planeta de nós mesmos. Há que proteger nós mesmos de nós mesmos.

“28 anos? Que novinha”. “28 anos? Mas só?” Foram os meus 28 anos, a minha existência e esse é o meu blog, então nesse espaço eu posso dizer que esses 28 anos importam, sim. Foi um montão de tempo. Deu pra fazer, ver, sentir, ouvir, contar muita história. E espero que eu viva pra contar muitas, muitas, muitas mais.

 

Eu-Lívia, humana, brasileira, que não desiste nunca, caminhando por esse mundo tão tão grande, tão tão pequeno. Uma história que tem vários pedaços desinteressantes, mas pode deixar que vou tentar publicar só o que interessa, em partes, com calma. Esse texto talvez seja desinteressante. Não ligo, hoje é meu aniversário, eu mando.

 

O mundo fica maior quando viajamos: os lugares novos se multiplicam em proporção geométrica, há sempre um cantinho a descobrir, lugares escondidos no mapa que outros viajantes conheceram e disseram “vai lá, você vai adorar”. Com o tempo, ficamos sabendo também de lugares escuros pra onde ninguém quer olhar, onde vivem humanos cujos nomes vão se perder no tempo, misérias que parecem infinitas, violência, fome, destruição, sombra. Lugares muitos, cada dia aparece um novo. Quero pensar que, também, a cada dia acende uma luz no meio da lama. São lugares repelentes, “você quer mesmo ir pra lá?” Lugares que ao pensarmos neles o coração fica apertadinho, pequenininho, impotente. A vida não é só bolo e sorvete, é preciso lembrar sempre. O que podemos fazer? Quem podemos ajudar? O que eu tenho para doar?

 

O mundo fica menor quando viajamos: as ruínas daqui se parecem muito com as de lá do outro lado do planeta, as florestas tropicais são as mesmas à distância, os desertos são na verdade um deserto só, infinito e silencioso. As mesmas pessoas se repetem em hoteis, museus, fronteiras diferentes. Conhecemos amigos de amigos em comum nos lugares mais improváveis. Conhecemos gente que nunca saiu da mesma terra e que tem uma sabedoria infinita. Conhecemos gente que nunca ficou no mesmo lugar por mais de um ano e que tem uma sabedoria infinita. Conhecemos muita gente desinteressante também, mas dessas é fácil esquecer.

 

Os humanos se conectam, se unem, querem as mesmas coisas, queremos. Você quer ser feliz? Eu quero. O que é felicidade pra você? Nos juntamos com quem coloca a felicidade na mesma prateleira que a gente.

 

Hoje, no meu aniversário, acordei cercada pela minha família. Amores antigos, desde o nascimento (o meu, o das minhas irmãs), meus amores que me apoiam nas minhas loucuras, que sentem saudades, que falam bobagem e coisa séria, que puxam minha orelha, que me jogam pra frente, que me dão pezinho pra eu escalar muros cada vez mais altos. Foi bom voltar só pra ter essa semana aqui, no ninho. É bom ter um ninho pra onde voltar de vez em quando.

 

Foram 28 anos de muitos erros, muito mais que acertos. De sorrisos, de abraços, de gargalhadas, de choro debaixo do cobertor, de drama na porta, de correria de um lado pro outro, de atrasos, de esperas, de pôres e nasceres do sol, cada um diferente do outro. Nunca me canso. Quer dizer: canso, mas aí descanso.

 

28 anos de pés descalços correndo pelo mundo. De chinelo, melhor dizendo. “Menina, vai botar um sapato que você vai pegar friagem.” Nunca soube o que é a tal friagem, não peguei isso não. Também não pus um sapato. Soube, sim, o que é espinho, pedra, lama no caminho. Soube aprender a agradecer por uma estrada reta e lisa quando ela aparece, preciso aprender a lidar melhor com as estradas curvas, de subida e descida, chatinhas de percorrer, mas que são bem mais comuns – e que apresentam surpresas. Aprendi a gostar de surpresas, mesmo quando não são das melhores.

 

Aprendi a valorizar um lençol limpo, um chuveiro quente, uma refeição preparada com amor, uma tarde de sol despreocupada, um cantar de pássaro no meio do caos.

 

Aprendi a parar, respirar, fechar os olhos e desenrrugar a testa.

 

Aprendi a agradecer, aprendi a perguntar, aprendi a discordar educadamente – mentira, ainda estou aprendendo, às vezes eu erro. Muitas vezes.

 

Aprendi que tudo é impermanente. Que é preciso deixar vir e passar, como as águas de um rio. Aprendi que não há pressa – exceto quando há, tipo quando estou atrasada pro próximo ônibus/avião/trem/barco/espaçonave.

 

Aliás, estou atrasada e esse texto vai ter que ganhar um ponto final antes do tempo. É que eu quero publicar hoje mesmo, hoje que é meu aniversário.

 

Parabéns pra mim, parabéns pra nós por estarmos aqui. Juntos! Unidos e separados pela internet. Viver é resistir. Resistamos com um sorriso no rosto. Viver é disputar por um pouco de ar, um pouco de sol, um pouco mais de tempo, só mais um pouco. Sobreviver. Vencer? Vencemos mais um dia, que venham outros mais.

 

Obrigada aos leitores que chegaram até aqui comigo! Desculpem as chatices. Deixem um comentário após o bip!

 

BIP!

 

Foto: Meus pés que já aguentaram muita coisa descansam na Laguna Bacalar, México

 

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1 pensamento sobre “28 anos de pés descalços”

  1. Ei mana!
    Só “liguei” pra deixar parabéns, mas encontrei um texto bacana e com o qual muito me identifiquei, até pelos mesmos 28 que completarei daqui a 4 meses. Obrigado por isso, além de por existir! Mas xô ir, pra não ocupar demais a fita da “secretária eletrônica”. Depois me liga pra gente conversar melhor.
    Beijo!
    (BIP!)

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