Notas de uma peregrina sobre o Caminho de Santiago de Compostela

Cristiana Brandão, a Cris, é uma amiga singular, mulher que cava, cava, cava até encontrar o que procura, que não desiste dos próprios sonhos e ainda sim sabe ser maleável e aberta a mudanças de rumo quando necessário. Ela acabou de voltar de uma peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela e foi muito generosa de compartilhar sua experiência com o blog!

 

Este texto vale ouro, leia com cuidado, compartilhe com os amigos andarilhos e inspire-se! Eu já estou pensando nas botas que vou precisar comprar pra fazer a viagem, hehehe.

Fez uma viagem incrível e quer compartilhar dicas com os leitores do blog? Me manda um email que eu publico! livia.aguiar@gmail.com

 

Permanece en ti

Notas de uma peregrina sobre o Caminho de Santiago de Compostela

Em uma jornada como a feita por peregrinos desde o século IX a caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, uma coisa é certa: você fica atento aos sinais. Pode ser um encontro numa estação de ônibus, um grafite que você vê de forma recorrente ao longo da estrada, pessoas que cruzam seu trajeto, uma música que te conduz por quilômetros a fio e até uma frase. “Permanece en ti” foi uma dessas pérolas que eu colhi ao longo do caminho.

 

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Na cidade de Estella/Lizarra, na região de Navarra, norte da Espanha, primeira fase da peregrinação, vi uma frase escrita na porta do banheiro de um albergue. “Permanece en ti” fez eco nesse dia e esteve presente ao longo das 6 semanas em que cruzei o norte da Espanha seguindo a “Ruta Jacobea”, também conhecida como o Caminho Francês, uma das várias rotas que cortam a Espanha e levam pessoas de todas as partes do mundo até a cidade de Santiago de Compostela. “Permanece en ti” é também o título de um poema de Lao Tsé, filósofo e escritor chinês, sobre mudança.

 

Preparação

No Brasil e na internet, o que não falta é material sobre o caminho. A literatura, os blogs e as informações sobre essa rota de peregrinação são vastos. O bruxo da literatura Paulo Coelho ajudou a aumentar a aura mística com o bestseller O Diário de um Mago (1987), livro super presente até hoje no caminho em diversos idiomas, mas basta fazer uma busca no Google que o acesso a diferentes pontos de vista, mapas e dicas vão borbulhar em sua timeline. Minha pesquisa partiu daqui:

 

⁃ site : http://www.caminhodesantiago.com.br
⁃ app : Camino da Eroski Consumer
⁃ Instagram : iPeregrinos
⁃ Twitter : @CaminoDSantiago ; @haciacompostela ; @caminoasantiago ; @Buen_Camino
⁃ #s : #buencamino #buencaminoperegrino #CaminodeSantiago
⁃ Livro : Camino de Santiago da Andréa Prestes (uma beleza!)
⁃ Mapa : St-Jacques-de_Compostelle da IGN
⁃ Documentário : ‪El camino a Santiago com Paulo Coelho e disponível no YouTube

 

Definitivamente, o motivo desse textão não é engrossar o coro de material de pesquisa sobre o caminho.

Aqui, compartilho – em primeira pessoa e a convite da minha amiga viajante profissional Lívia Aguiar – como foi caminhar ao lado de peregrinos, cristãos, judeus, americanos, coreanos, canadenses, brasileiros, turistas, jovens, idosos e tantas pessoas extraordinárias o caminho rumo à cidade de Santiago de Compostela, local onde estão os restos do apóstolo Tiago.

 

Mas não se engane! Muito mais do que uma rota religiosa/cristã, o Caminho já foi uma rota de peregrinação celta, tem vários trechos de Vias Romanas, foi a morada dos Templários e é também uma rota de peregrinação com direito a Salvo Conduto dos Reis Católicos Isabel de Castilla e Fernando de Aragon. Para todos que se dispõem a cruzar a Espanha, essa é uma jornada do corpo, da mente e do espírito.

 

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La Meseta

 

Primeiros passos

Minha caminhada começou no dia 05 de maio de 2016 em Saint Jean Pied du Port na fronteira da França com a Espanha e só terminou no dia 16 de junho quando cheguei até o “fim do mundo” dos romanos, na cidade costeira de Fisterra ou Finisterra, no Atlântico. Depois de tanto caminhar, eu queria apenas ver o mar e saber que ali minha jornada tinha um fim.

 

Durante 43 dias, ao longo de 862km, caminhei todos os dias, carreguei minha mochila de 6,5kg nas costas, dormi apenas em albergues de peregrinos, cuidei de 5 bolhas grotescas nos pés, nadei em rios gelados, bebi vinhos incríveis, vi o sol nascer na estrada e se recolher ao longo dos campos de Canola, vi o tão famoso facho de luz verde no pôr do sol, andei debaixo de sol, chuva, tempestade e vento e, literalmente, encontrei o ouro do caminho – amigos.

 

Foram 775km de Saint Jean Pied du Port até Santiago de Compostela e mais 87km até Fisterra. Minha credencial de peregrina, retirada 1 dia antes da jornada ainda em solo francês, está repleta de carimbos. Cada um dos albergues em que me hospedei em Navarra, La Rioja, Burgos, Castilla & Leon, La meseta, Palencia e Galicia estão registrados no meu passaporte de peregrina. Mas são as pessoas que eu conheci ao longo de 6 semanas que fizeram com que esse caminho realmente fizesse sentido. Cada uma delas tem nome e sobrenome, credo, raça e cor diferentes e também histórias maravilhosas que compartilharam comigo ao longo da estrada.

 

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#Loveistheanswer

Durante essa jornada – do corpo, da mente e do espírito – você vive uma experiência de amor. Ao longo do caminho pude registrar uma frase que vi e ouvi tantas vezes: Love is the answer.

 

As pessoas se ajudam, se cumprimentam, estendem as mãos uma para as outras, caminham no mesmo chão sob o mesmo sol independente da conta bancária. Todos estão ali porque, de alguma forma, decidiram que era o momento exato para fazer uma peregrinação. Não é uma competição para ver quem chega primeiro, quem anda mais rápido ou quem tem o equipamento mais top de linha. São pessoas que esperam algo da religião ou da espiritualidade, que desejam caminhar o dia todo e ainda sentar em torno de uma mesa com pelo menos 12 diferentes nacionalidades e conversar. Pessoas que se preocupam se alguém não tem cama e se mobilizam para conseguir um leito para aquela pessoa, que te oferecem água ou comida se você precisa, te ajudam a tratar das famigeradas bolhas e vibram quando alguém consegue finalizar um trecho mais difícil ou até mesmo completar uma ligação para casa.

 

É um grupo peculiar em um local “místico” ou “santo” e que estão ali porque desejam ao menos olhar para o lado e reconhecer quem está ali, bem perto, dividindo a mesma experiência.

 

No dia em que deixei Paris e segui de ônibus para Bayonne, primeira parada antes de começar a peregrinação em Saint Jean Pied du Port, conheci uma coreana: Kim, The Eagle, uma professora primária aposentada que mora pertinho de Seul. Uma viajante experiente com 64 países carimbados no passaporte e que completou pela quarta vez o Caminho de Santiago. Fiquei amiga na hora!

 

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Kim, The Eagle

 

No alto dos Pirineus, no primeiro dia de caminhada, ouvi uma melodia. Depois entendi que era uma voz feminina, fui seguindo o som, vi uma mulher caminhando rápido, continuei escutando ela cantar, começamos a conversar e desse dia em diante caminhamos quase 30 dias juntas. Carolyn Reeves é uma cantora de jazz norte-americana nascida em Connecticut e moradora nômade pela Califórnia. Minha “hermana” de caminho, uma amiga para toda vida.

 

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Carolyn

 

Como Kim e Carolyn, conheci pessoas incríveis com histórias extraordinárias que me faziam querer cada dia caminhar mais e mais, que a próxima cidade nunca chegasse para que a conversa não acabasse ou que a próxima garrafa de vinho literalmente brotasse do meio do nada para que aquele encontro único durasse mais um pouco.

 

Foi assim com a professora canadense Samantha, uma figuraça que já morou no Brasil, usa Havaianas, toma vinho como poucas pessoas que conheci na vida e que fazia o caminho em homenagem a um amigo querido que faleceu em um acidente de carro. “I’m a girl on a mission, Christianna”, frase que ouvi inúmeras vezes com o sotaque carregado e um sorrisão indescritível.

 

Raymond, um peregrino finlandês de 80 anos, arrancava suspiros e aplausos de cada um que cruzava o seu caminho. Forte e experiente, ele também acumula 15 títulos mundiais de navegação em florestas. No dia em que andamos apenas 11 km e decidimos ficar em Monjardin, Raymond pediu para Carolyn cantar “Summertime” de George Gershwin. Um dia para guardar na memória!

 

Também tiveram Caro, uma alemã de 19 anos que estuda medicina e ama a América Latina; Sam, um viking ex-jogador de futebol americano e mente brilhante de TI que ama um bom vinho branco; Begoña, dona do melhor restaurante de Navarete e cantora nas horas vagas; Miguel, espanhol de 94 anos que caminha pelo monastério de San Juan de Ortega e mostra para os peregrinos todas as obras de restauro que já fez na igreja ao longo de 60 anos de trabalho; Mary, uma americana de Ohio e moradora do Colorado que tem uma fé que remove montanhas; Bresser, meu amigo brasileiro, caminhante noturno, peregrino boa praça e dono de uma acervo de fotos incrível sobre o caminho; Marysia, polonesa bossanova que arrancava suspiros da geral e que estava fazendo o caminho como fonte de inspiração para o seu trabalho como artista; Mark, escritor e escalador norte-americano, amigo de noitadas e poeta persuasivo que me fez trocar um poema dele por uma lista com o nome de cada pessoa que me ajudou no caminho; Basilio, coreano naturalizado espanhol e cantor de ópera; Tinya, ginecologista canadense com o preparo físico em dia e que me convenceu a andar 43km em um dia, Michelle, Holger, Pedro, Rafael e tantas pessoas que fizeram com que o caminho não seja apenas uma ideia, um traçado no mapa, mas um local concreto onde pessoas incríveis vivem juntas experiências extraordinárias. O que importa não é onde você vai chegar e sim com quem você vai dividir a jornada.

 

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Setas amarelas

Mesmo carregando um mapa e com o app do caminho na mão, o que me guiou foram as setas amarelas. De forma impressionante, todo o caminho é marcado para que os peregrinos sigam as setas amarelas. Elas estão presentes no meio do mato, em trilhas, nas cidades e são como um chamado. Se por descuido ou distração você se perde, lá estão elas, as setas amarelas, para garantir que os peregrinos cheguem ao seu destino.

 

A estrutura oferecida na Espanha também impressiona. Albergues municipais de peregrinos não custam mais do que 8 euros. Albergues privados podem chegar a 15 euros. Também existe a opção de dormir em albergues de donativos – os melhores – que custam apenas o que você acha que pode ou deve pagar. Água potável é gratuita em fontes no meio da praça em cada vilarejo e a excelente comida espanhola dá um charme ao caminho. Mas o vinho… ah o vinho, esse embala nossas noites, pode ser tinto, branco ou rose e está disponível ao longo do caminho por um preço assustadoramente acessível. Por dia, cada peregrino deixa na Espanha de 20 a 30 euros, contando com refeições, hospedagem e noitadas. 

 

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Noitada em Leon

 

No hay camino

Na cidade de Viana, dentro de um templo romano, foi colocada uma placa com a seguinte mensagem : “Caminante, no hay camino”. Ali, naquele dia nublado, sozinha e no meio de uma chuva rala, parei, li e reli essa frase e rezei todas as preces, orações e mantras que conheço. Ali, eu sorri de dentro para fora e entendi que não estava fazendo um caminho e, sim, peregrinando. Não importava onde fosse dormir, nem quantos quilômetros iria fazer em um dia e nem se iria encontrar meus amigos na próxima parada. “Hoje, aqui e agora” era algo que eu repetia para mim mesma durante o caminho. Tal e qual a frase “Permanece en ti” e a #Loveistheanswer, que eu encontrei inúmeras vezes nos muros ao longo dos 862km de percurso, “Hoje, aqui e agora” era algo que eu repetia para não me perder, para não deixar para depois, para não pensar nisso amanhã.

 

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Um dos locais que marcou o meu caminho foi o albergue de Tosantos. Cheguei doente, com uma alergia que não passava, cansada e com fome. Santiago, o hospitaleiro, me recebeu, me fez jogar fora meu sabonete e shampoo, me deu um produto neutro, abriu o albergue antes do horário marcado só para me receber, me deu casa, comida e me fez descansar. Ele também me deu dicas preciosas sobre o caminho. Essas dicas não são verdades absolutas e nem um credo a ser seguido.

 

São sabedorias adquiridas por um peregrino espanhol que já fez o Caminho de Santiago 18 vezes e que hoje ajuda peregrinos como hospitaleiro:

 

  1. em sua mochila você carrega os seus demônios. Ou você carrega 20kg ou 6,5kg de demônios. A escolha é sua
  2. demônios queimam, independente se são muitos ou poucos
  3. Santiago conversa com os peregrinos através do corpo. Aprenda a escutar o porquê das dores, lacerações, bolhas e machucados
  4. o peregrino carrega sua mochila, sua comida e sua água. Lógico que ele pode parar e comprar ou até compartilhar uma refeição
  5. um anjo caminha ao seu lado assim que você começa a jornada. Anjo não pega ônibus, trem, carro nem envia mochila

 

Passei um dia inteiro ao lado de Santiago conversando e falando sobre o caminho. Ele não tem nenhuma aspiração em ter a palavra final ou se está certo ou errado. Apenas está lá para ajudar e me ajudou demais. Me disse com um sorriso duro na cara: “Cristiana, você não é turista. Não está aqui a passeio. Você é uma peregrina.” 

 

Buen camino!

 

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Cristiana Brandão é jornalista e atriz de formação e storyteller por opção. Já trabalhou como repórter, apresentadora, produtora, redatora, coordenadora e gerente de contas e operacional de projetos em múltiplas plataformas, tais como TV, rádio, coberturas ao vivo, internet, festivais de música, apps, sites, blogs, social media e mobile. É fundadora dA Dupla Informação e também atua como produtora executiva e coordenadora de operações de projetos em comunicação.

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