A tal hora de ir pra casa

Começa com uma saudadezinha mais apertada do que o normal.

 

Você passa a contar mais e mais casos de família, de amigos, de paqueras antigas. Conta pra todos que conhece na estrada sobre como sua mãe é incrível, seu pai é sensacional, suas irmãs são inteligentíssimas em todos os campos do conhecimento. As suas amigas são as mais lindas, os amigos também. E todos têm um toque especial que os torna únicos e insubstituíveis. Você começa a mostrar mais fotos deles pras pessoas. Marca mais conversas por skype. Prepara coxinha, pão de queijo, faz arroz com feijão mesmo sem ter panela de pressão. Relembra os lugares especiais por onde viajou dentro do seu país. Tenta imitar os diferentes sotaques. Ri de si mesma por não conseguir falar nem o seu brasileiro nativo direito: algumas palavras saem em portunhol, outras em portunglês, faz tempo que não encontra ninguém da terrinha.

 

Pronto, tá instalada a saudade.

Saudade boa, daquelas que fazem a gente sorrir quando lembra dos ventos nas diferentes estações do ano, da chuva de verão que acaba rápido, do inverno fresco, do cheiro matinal de café e pão com manteiga, das frutas mais bobas e baratas (como são gostosas), da linguagem secreta dos vendedores de rua, das expressões faciais e gestos comuns que só são comuns lá, na terra natal.

 

Então a saudade começa a apertar mais. Você sonha com os seus mais queridos, começa a ficar até chata de tanto falar do Brasil.

 

Tenta se distrair com mais viagens, chega a lugares incríveis que você jamais imaginou que existiam. Conhece gente nova, revê amigos feitos na estrada, experimenta novos temperos, novos ingredientes, ouve novos sotaques, novos cantos de rua, novos ritmos. Mas seu pensamento está no feijão tropeiro, na farofa, no jiló refogadinho, no acarajé da baiana da feira, no cantar “ó o pesado, ó o pesado” do carregador, no caminhão de pamonha, no apito do amolador de faca da esquina da casa da vó.

 

“Por que fui embora mesmo?”. O corpo e a mente pedem aconchego. “Quem sabe continuar viajando, só que no meu próprio idioma?” “Primeiro vou abraçar minha mãe”.

 

As notícias do mundo de lá não são das melhores: onda de direitismo egoísta, pedidos pela volta da Ditadura (esqueceram tudo??? Ou nunca souberam? Ou nunca se importaram?), redução da maioridade penal (só pros pobres, claro, os ricos não ficam presos), demissões em massa nas redações jornalísticas (surpreende que ainda há gente nas redações), recessão econômica, perspectivas ruins para os próximos dois anos, a alta do dólar, ai, o dólar.

 

O borderô da viagem ainda tá na metade, a passagem aérea pode ser remarcada sem grandes dramas, aparecem oportunidades para alugar por um mês uma casinha quase de graça no meio do paraíso, os projetos que dependem da estrada não param de surgir. Ou seja: não existem razões lógicas para voltar.

 

Aí você considera que não vai voltar pra casa, vai ir pra casa. E seguir indo. Vai fazer um pit-stop estratégico. Quem fica? Essas condições inóspitas de temperatura e pressão. Decide voltar, mas sem voltar de vez. Você vai, sem fincar raízes, mas de volta às raízes. Vai reabastecer, respirar os ares da terrinha, rever suas montanhas, dançar a sua música, deixar de ser “a brasileira”, voltar a ser mais uma brasileira. Aninhar-se.

 

O coração pede.

 

Brasil, pode colocar mais água no feijão que eu tô chegando!

13 pensamentos sobre “A tal hora de ir pra casa”

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  2. O teu primeiro paragrafo é super eu: sei que tô com saudades dos meus quando começo a falar muito mais deles, conto historia de infância e repito anedotas!

    Texto bem bonito!

    Boa chegada ao Brasil , Livia.

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