O interior de Minas são muitos

Minas Gerais é o segundo estado mais populoso do Brasil e tem território maior que a França. É um país dentro do país. Os sotaques variam de acordo com a proximidade com outros estados e com suas características próprias, influenciadas pela topografia, hidrologia e historiografia.

 

Em Belo Horizonte, cidade jovem composta por famílias vindas de Minas e Brasil inteiro, o sotaque da região centro-sul alonga vogais e corta o final das palavras (A Praça da Savassi é a “saavaas”) e é notadamente diferente da fala da região norte de Beagá, que edita ainda mais as sílabas e não perde tempo com vogal “quas nium”.

 

No interior de Minas, a diversidade aumenta em progressão geométrica.

Da divisa com São Paulo até Oliveira, subindo pela Fernão Dias, enrolam-se os erres em si mesmos em versões “light” do interior paulista – mudança recente, minhas avós nascidas e criadas na região pronunciavam erres vibrando a língua entre os dentes, cheios de assobios: “vem comersh, minha filha”.

 

No nordeste, ali na divisa com Bahia, o ritmo se desenrola lento, baiano, mas as palavras saem rápidas, sílabas faltando, mineiramente. “Quinz’ quil’ d’ quêj”. Deu pra entender? Mais ou menos, né.

 

Não dá pra explicar assim, com escritas. Tem que vir viver. Abrir os ouvidos e tomar um, dois, mil cafezins cheios de prosa.

 

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Flores do campo, colhidas em uma caminhada breve pelos arredores de Santo Antônio do Amparo, MG

 

Trabalhando com o Projeto Manuelzão na bacia do Rio das Velhas, tomei café com uma rainha e um rei (do congado), uma lavadeira, um médico, uma cantora, um dentista, uma cozinheira, um violeiro, uma, duas, três donas de casa de idades variadas. Bastava passear pelas cidades pequenas à pé com a câmera ou o gravador na mão para ser convidada a entrar “prum cafezim”, que nunca era só café: bolo, biscoito, broa de fubá e pão de queijo fazem parte do ritual, não importa a classe social do anfitrião.

 

Vai ser inevitável: fique no interior de Minas tempo suficiente e você terá bebido xícaras e xícaras de café para perder a conta. De preferência, com pão de queijo.

 

Eu, como belorizontina que viveu 4 anos em São Paulo e um ano e meio “por aí” no mundo, tenho um sotaque híbrido, não identificável, mas faço questão de deixar meus uais e trens por onde passo. Já aceitei que vai ser assim nesse meio lugar que eu vou viver.

 

Gosto, faz parte de estar na estrada.

 

Só de entrar na rodoviária, meu coração se acelera, o estômago aperta, a cabeça voa imaginando o que me espera no próximo destino. E, assim como é bom alcançar o desconhecido, é muito gostoso voltar – com olhar renovado – e redescobrir os detalhes que passam batido no cotidiano.

 

 

3 pensamentos sobre “O interior de Minas são muitos”

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