Tudo que você precisa saber para planejar sua viagem para Mianmar

Mianmar, Myanmar, Birmânia, Burma. O país tem muitos nomes, muitas complexidades, mas vou deixar todas as considerações políticas e econômicas que você precisa saber antes de sua viagem para Mianmar para esse post aqui, escrito em 2012 logo depois que voltei de lá.

 

Algumas coisas que conto nos posts sobre o Mianmar podem ter mudado, porque o país está se transformando em rapidez assustadora desde o fim do embargo econômico europeu e estadunidense – mais um motivo para ir nesses lugares e conhecer essas pessoas antes que eles se percam para sempre.

Considerações iniciais sobre sua viagem para Mianmar:

Depois que você ler o post sobre as considerações políticas, vale a pena ler este post introdutório sobre o Mianmar, que explica sobre o governo autoritário terrível de lá, informa sobre o que pode e não pode no país e como burlar alguns dos controles impostos pela ditadura.

 

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Amigos que fiz em Pakokku me levaram para conhecer o mosteiro e os monges que participaram da Revolução Açafrão, que tentou (sem sucesso) derrubar o governo ditatorial do Mianmar

 

O melhor do país são as pessoas

Entrar em contato com elas, ouvir suas histórias, contar as suas. Por isso, a bicicleta é um ótimo meio de transporte: todo mundo anda de bike (exceto em Yangon, onde os estrangeiros são proibidos de usar a bicicleta – motos também são proibidas na cidade) e você consegue parar a qualquer momento quando algo chamar a sua atenção.

 

A cultura é bastante diferente dos países em volta. Meninos e meninas usam o thanaka (maquiagem que é uma laminha feita com pó de uma madeira do Mianmar) para se proteger do sol, se refrescar. As mulheres adultas também o usam bastante. Além da função prática, o thanaka também tem uma função estética: eles fazem desenhos geométricos e que imitam formas da natureza com a lama em seus rostos. Vale a pena experimentar uma vez. O thanaka realmente aplaca o calor, é uma lama fresca!

 

Muitos homens ainda usam o longyi (saia tradicional masculina), que também era usado na Índia. As mulheres também usam roupas com formas tradicionais – difícil ver alguém de calça no interior do país.

 

Infelizmente desde o fim do embargo econômico por parte da União Europeia e Estados Unidos isso está mudando nas grandes cidades. Amigos que foram ao Mianmar ano passado me disseram que viram vários homens de calça – impensável em 2012! Mas é só se afastar um pouco dos centros urbanos para encontrar pessoas que ainda mantém suas tradições.
Os birmaneses são um povo agrário, todo mundo acorda cedo e vai dormir cedo. Pouco depois do cair da noite, já não existe mais nada pra fazer no Mianmar, exceto nos lugares para turistas. Então vale a pena acordar praquele nascer do sol de vez em quando, viu? Mais sobre isso abaixo.

 

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Ponte U-Bein

 

A segunda melhor coisa são as paisagens, tanto naturais quanto feitas pelo homem – e a mistura bela dos dois elementos

Nunca perca um pôr do sol no Mianmar. Eu diria mais: nunca perca o nascer do sol e o pôr do sol, mas nem sempre é possível fazer os dois, rs. Tem gente que fala que esse é o motivo 1 pra ir ao Mianmar, mas pra mim as pessoas são ainda mais maravilhosas.

 

As cores do céu são impressionantes por si só, cada dia é diferente e você vai querer gravar todos na sua mente pra reprizar de vez em quando depois que voltar.

 

Somados à natureza, os telhados banhados a ouro dos templos antigos e novos reluzem na luz do poente – eles são feitos pra isso.

 

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Bolinhos de arroz com tempero inesquecível

 

A terceira melhor coisa do país são as comidas

Não que você vá encontrar uma alta gastronomia. E a carne nem sempre é gostosa – pense num país com poucos recursos e baixa renda!

 

Porém… tudo é fresco, de estação, feito pelas avozinhas birmanesas. Na dúvida sobre a procedência, coma vegetariano – por causa do budismo, a culinária vegetariana é deliciosa e a carne não vai fazer falta.

 

Coma o máximo de vezes em mercados e postinhos na rua que puder: lá está o verdadeiro sabor. Os birmaneses têm temperos diferentes da Índia, da Tailãndia, da China. São ingredientes muito próprios de lá mesmo.

 

Não espere carnes maravilhosamente macias e sim preparações tradicionais interessantes. Coma com a cabeça aberta, experimente de tudo.

 

Muitas pessoas mascam a noz de betel o dia todo – e cospem um catarro vermelho na rua mesmo, sem cerimônia. Aviso para você não estranhar demais! Eu experimentei uma vez no mercado de Mandalay e fiquei zonzíssima… não curti.

 

Informações práticas

Quando as pessoas viajam ao Mianmar, existem quatro roteiros imperdíveis, apelidados de Fab Four: Mandalay, Yangon (cidades de entrada), Bagan e Lago Inle. Todo turista tenta conhecer pelo menos os quatro lugares. Eu não consegui ir ao Lago Inle, então minhas dicas sobre o lugar são dicas de amigos que me ajudaram a fazer meu roteiro pros lugares que eu consegui ir.

 

Se você estiver voando com a Air Asia (e eu recomendo por ser mais barata e não ser uma companhia aérea do governo) recomendo voar primeiro pra Mandalay e voltar por Yangon, para evitar o longo deslocamento do norte pro centro do país duas vezes.

 

Na época que eu fui, não existiam muitos hoteis autorizados pelo governo com preços acessíveis em Yangon e Mandalay, recomendo reservar lugar nessas duas cidades com antecedência. Já Bagan e Lago Inle são tão turísticos que você não vai ter tanta dificuldade de procurar o melhor hotel quando chegar lá – mesmo assim, você consegue reservar antes.

 

Os deslocamentos entre cidades são longos – não parece, mas o Mianmar é um país grande! Os horários de ônibus são confusos, então vale muito a pena ir à rodoviária do lugar reservar o seu assento com antecedência. Só assim você vai saber os horários certos (mais ou menos) de viagem.

 

Aviso: os ônibus quase todos têm TV com uma programação intensa de karaokê, novela, filmes de comédia e músicas budistas birmanesas. A noite inteira. Leve protetor de ouvido e cobertorzinho, porque o ar condicionado também é muito frio.

 

Na verdade, eu preferia ir nos ônibus mais locais e toscos porque eles não tinham TV nem ar, aí conseguia dormir melhor. Mas eu não me importo com as situações roots, né. De qualquer maneira, os ônibus fazem várias paradas misteriosas durante a noite. Tanto para deixar e recolher pessoas no caminho quanto para que a polícia confira a permissão pra viajar de todo mundo do ônibus. Muitas vezes é um check-up só pros locais e você pode ficar dormindo na sua poltrona, mas de vez em quando você também vai ter que descer e mostrar a sua passagem.

 

Em duas situações você vai ter que pagar alguma coisa na estrada (que não vai ser propina): pra comprar ingresso de entrada em Bagan e do Lago Inle. Pelo menos na época que eu fui, eles eram vendidos em postos policiais antes de chegar nos destinos – e você vai precisar deles pra fazer check-in no seu hotel.

 

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Mãe e filha posam para foto em Yangon, com seu trishaw do lado, que usam para fazer entregas pela cidade

 

Recomendo fortemente voar dos destinos no norte (Mandalay, Bagan ou Lago Inle) para Yangon, se possível – é a viagem mais longa de todas e os ônibus do Mianmar são mesmo de matar. A única parada interessante no caminho seria em Naypyidaw, a capital Brasília-feelings do Mianmar, mas a cidade é proibida pra estrangeiros, então… você não vê nada dela. A estrada faz um desvio e o ônibus é proibido de parar, inclusive.

 

Falado isso, quanto menos você comprar de órgãos governamentais, melhor. O estado do Mianmar pode até estar “mais aberto” e “mais amigável” do que já foi, mas ainda é um governo super totalitário, controlador, opressor e realmente do mal. Você vai entender isso quando conversar com as pessoas lá. Aliás, você provavelmente vai falar muitos sobre política quando tiver lá. Mas não force a barra, o país tem um histórico de espiões do governo (eles ainda existem), então deixe os birmaneses conduzirem a conversa e não insista se eles não quiserem mais conversar sobre o assunto. Você vai perceber a opressão e medo das pessoas também. Por isso que eu bato na tecla de encontrar pessoas só pra bater papo mesmo, assim você vai poder entender mais da realidade do país.

 

Sobre impressões do trânsito no Mianmar, recomendo a leitura desse meu post (que saiu na Revista Autoesporte em 2012)

Mianmar Fab Four

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Mandalay

Se voar para Mandalay de Air Asia, você vai chegar à tarde e vai querer fazer logo seu check-in, trocar dinheiro (sempre no banco!!!), comer e dormir. Nessa ordem 😉 E não perca o pôr do sol, claro! Mandalay é uma cidade agitada e barulhenta, bem sudeste asiático. Muitas motos, muito barulho de motor.

 

Lá, o interessante é conhecer o mercado, pedalar pelo centro (vale a pena circundar o Palácio Real), subir o Monte Mandalay (pôr do sol!) e sair de Mandalay para day-trips.

 

Bicicleta: sua melhor amiga em Mandalay, como contei aqui.

 

No vídeo abaixo, mostro minha viagem (de mochilão e tudo) do hotel em Mandalay até a rodoviária em um trishaw (bicicleta com um sidecar (onde estou sentada).

 

Bem pertinho está a Ponte U-Bein, a ponte de madeira mais longa do mundo.

 

Ela é linda e perto de Mandalay, vale a pena alugar uma bike e pedalar até lá antes do nascer do sol e ter a ponte só pra você e pros monges do monastério de Amarapura. Aliás, ver o ritual de alimentação dos monges pela manhã também é uma coisa interessante a fazer antes de voltar pra Mandalay de bike.

 

Num outro dia, eu pegaria um tour de tuk tuk (basta contratar um tuk tuk na rua mesmo) para conhecer Inwar e Sagaing, outras duas cidades perto que são bonitas, – e voltar à Ponte U-Bein no final do dia para o badalado pôr do sol.
Planeje os três dias em Mandalay para você conseguir pegar um ônibus pra Bagan no final do terceiro dia.

 

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Amigos que conheci em Pakokku – à minha esquerda está o professor Collins, dono da escola de inglês que fez minha estadia em Pakokku inesquecível

 

VISITA EXTRA: Pakokku

Se você tiver tempo, recomendo fortemente uma noite em Pakokku, entre Mandalay e Bagan. Fique na guesthouse da Mya Yatanar (não está no booking.com), a versão birmanesa da sua mãe. Mya é dona do primeiro hotel de Pakokku, fala super bem inglês, é velhinha e fofa. O hotel dela não é grandes coisas, mas é barato e ela tem muitas histórias pra contar sobre os tempos antigos no Mianmar, vale a pena.

 

Em Pakokku, vá à escola de inglês do Mr Collins (pergunte pela cidade) e seja voluntário por um dia: você vai poder conversar com os alunos dele, fazer todas as perguntas que tiver sobre a cultura e história do Mianmar (acredite, você vai ter várias dúvidas e esse vai ser um caso raro de conversa informal e despojada com gente que fala bem inglês) e ainda pode dar sorte de ser levado em um tour pela cidade, como aconteceu comigo e contei aqui.

 

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Bagan

Existem três cidades dentro do sítio arqueológico de Bagan: Old Bagan (no meio meio meio das ruínas, cidade que hoje só tem hoteis de luxo), New Bagan (cidade pra onde as pessoas que moravam em Old Bagan foram despejadas, urgh) e Nyaung-u (cidade normal birmanesa na lateral da área das ruínas). Recomendo ficar em Nyaung-u para você poder ter tanto a experiência “ruínas” quanto ter contato com as pessoas locais, comer em restaurantes locais, etc.

 

Vá conhecer Bagan de bicicleta pelo menos UM dia, pra você poder parar em qualquer templo, em qualquer lugar, pra apreciar a paisagem. Os melhores templos são aqueles que você consegue subir e ver todos os outros lá de cima. os templos em si são médio interessantes, o bonito MESMO é a paisagem em volta, a planície salpicada de construções douradas sobre a terra dourada – imagina no pôr do sol. O nascer do sol também é um espetáculo (e mais vazio).

 

Leve água e lanchinhos, ou então vá perto dos templos badalados pra comprar mantimentos dos vendedores ambulantes, não existem muitos restaurantes na região!

 

Numa viagem ideal, eu recomendaria que você pegue a bike num dia bem cedinho, veja o nascer do sol, passearia tudo, descanse no hotel e volte de bike pras ruínas no meio da tarde pra ver o pôr do sol lá. Depois, no segundo dia recomendo que acorde mais tarde pra descansar e vá de tuk tuk passear nos lugares mais longes. No terceiro dia, você pode fazer um passeio de balão pelas ruínas ou voltar de bike pra repetir templos que mais gostou, ou conhecer uma outra parte da região.

 

Fotos e impressões sobre a cidade, escritas enquanto estava lá, estão neste post aqui.

 

Lago Inle

A única cidade realmente de mochileiros que você vai conhecer no Mianmar fica às margens do lago Inle: Nyaung Shwe. Ela fica à beira do lago, tem aeroporto (que você vai usar pra voar pra Yangon!), tem hoteis de todos os níveis de luxo, do pé de chinelo baratinhos ao com cara de spa pra relaxar e fazer massagens.

 

Como disse antes, eu não conheci o Lago Inle, porque fiquei “presa” em Bagan (mais sobre a história aqui), então essas são as impressões de amigos meus, Javier e Claudia. Eu confio neles porque eles me ajudaram a montar meu roteiro pelo Mianmar e todas as dicas deles que eu segui nos outros lugares foram ótimas.

 

Javi e Clau me recomendaram ir de barco ao vilarejo flutuante e à ilha com pagodas bonitas. E disseram que o mercado flutuante é uma cilada pra turistas!

 

Recomendo a leitura (em espanhol) do blog dos dois, da época que viajaram pelo mundo, da Espanha ao México de 2011 a 2013 . Eles são um casal de espanhóis bascos sensacionais! Eles depois de ir ao Mianmar, eles continuaram sua viagem pelo Sudeste Asiático, Oceania e América do Norte de bicicleta. Eles voltaram pra Espanha e estão atualmente de férias na Islândia – também pedalando e acampando o caminho inteiro (mas infelizmente eles não mantêm o blog 🙁 ).

 

Bom, a sua viagem está chegando ao fim. Última parada:

 

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Yangon

Yangon foi a última capital do Mianmar antes do governo louco deles decidir construir Naypyidaw. É proibido buzinar e andar de moto lá, então a vibe vai ser COMPLETAMENTE DIFERENTE das outras cidades que você visitar no país.

 

Recomendo ficar hospedado perto da Sule Pagoda (Sule Phaya), porque fica perto do mercado de flores matinal, do mercado de artesanato (presentes birmaneses que faltarem podem ser comprados aí!), das ruazinhas que cortam a Av. Maha Bandoola, cheias de barraquinhas de comida deliciosas e também de cafés com internet (artigo raro no Mianmar), caso precise conferir alguma coisa no seu voo de volta. Recomendo fortemente uma loja de iogurtes artesanais muito local que fica na própria Av. Mahabandoola, mas você vai ter que perguntar por aí onde exatamente ela fica e se ainda está aberta. O dono já foi lutador profissional de kung fu e tem vários pôsteres dele na parede. Na TV, quando eu fui, tava passando Karate Kid.

 

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De imperdível, Yangon, além da região em volta da Sule Phaya, tem a Shwedagon Pagoda (foto acima), um templo maravilhoso impressionante que deve ser visitado à tarde, pra você poder conhecer tudo antes do pôr do sol e depois ficar só admirando as cores e as pessoas fazendo rituais de fim de dia lá dentro.

 

No dia do seu voo de volta, se estiver em Yangon, pegue um taxi (divida com a galera do hotel, geralmente todo mundo pega o mesmo vôo pra Bangkok) uma hora antes da sua hora de check-in, porque o aeroporto fica longe!

 

Enfim, é isso!

 

Espero que este post ajude você a planejar sua viagem! As ideias postadas aqui são um bom roteiro para uma viagem de 15 dias pelo país.

 

Com mais tempo, é possível ir conhecer o estado Shan (um dos que ainda tem resistência contra o governo e o único deles que turistas são autorizados a visitar – vá a Hsipaw!), a Pedra Dourada (Kyaikhteeyoe), uma pedra banhada a ouro no alto de uma montanha, as praias ao sul, sendo que a Ngwe Saung é a principal e mais famosa (pra isso você vai precisar de mais tempo de viagem!!).

 

São tantos lugares que me faltam visitar que já estou com vontade de voltar pro Mianmar!

 

 

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